domingo, 10 de abril de 2011

Sobre Itty Bitty Titty Commitee

Sempre fui completamente contra os rótulos que se colocam nos filmes que apresentam casais homossexuais. Quer dizer... se há um filme em que Tom Cruise e Cameron Diaz beijam-se, casam, ou fazem o que se deve fazer em um relacionamento hétero, ninguém diz que assistiu a um filme heterossexual. Porém, se Angelina Jolie e Winona Ryder beijam-se em determinado filme, automaticamente, ele passa a ser um filme homossexual. Ponto.

Portanto, não vou dizer que Itty Bitty Titty Commitee (2007) é um filme gay. Não, ele é uma comédia alternativa americana, filmada com fundos na organização Power Up. Trata, primeiramente, de feminismo, revolução, juventude, radicalidade, direitos e, ainda, o homossexualismo em alguns contextos.

O romance indeciso e confuso de Anna (uma aspirante a universitária um tanto sem graça que acabou de levar o seu primeiro pé-na-bunda) e Sadie (uma garota tão revolucionária em suas ideias quanto submissa em seu relacionamento com uma mulher que mais parece ser sua mãe) se torna apenas um complemento para o foco principal do filme: A defesa dos direitos feministas, não apenas os constitucionis, mas os ideológicos. "Abaixo a ditadura do pênis" é a mensagem que a C(i)A (Clits in Action), grupo feminista formado por mulheres heterossexuais, gays e transsexuais, tenta passar.

Não vou mentir. Itty Bitty Titty Commitee é um filme de mulheres para mulheres. O filme, desde a direção até a edição, é feito por mulheres. Mesmo no elenco, contam-se os nomes masculinos. E tenho minhas dúvidas se a maioria dos homens aguentaria os vinte primeiros minutos do filme. Anyway...

Embora um tanto radicais, as ideias propostas na produção são bastante interessantes. O filme condena desde o impulso social para que as mulheres sigam um determinado padrão físico e ideológico, até a instituição matrimonial, a qual, segundo a C(i)A, é mais uma forma de subjulgar a mulher à figura masculina.

Cena em que a C(i)A picha o vidro de uma loja de roupas para mulheres magras e troca os manequins para formatos variados, defedendo a ideia de que "Mulherem vêm em todos os formatos"


Itty Bitty é um filme dinâmico e divertido, formado por aquele elenco que você sabe que já viu em algum lugar, mas não lembra onde. Contudo, todos fazem um bom trabalho, de forma a serem compatíveis com a proposta do filme. As câmeras nervosas que parecem ser gravadas com uma digital de 5.0 px dão uma visão mais amadora ao mesmo tempo que original ao filme.

Vencedor de dois festivais na categoria Melhor Enredo, Itty Bitty Titty Commitee é capaz de prender pelos pequenos detalhes mesmo aqueles que não concordam com as suas ideias. Um filme mediano, mais para mais que para menos. Um ótimo passar de tempo para aqueles que desejam fugir um pouco das produções hollywoodianas.

Trailer - Itty Bitty Titty Commitee

terça-feira, 5 de abril de 2011

A cada 36 horas, um homossexual é morto no Brasil

Link original do texto no Instituto Humanitas Unisinos

Em 2010, 260 gays, travestis e lésbicas foram assassinados no Brasil. De acordo com um relatório do Grupo Gay da Bahia (GGB), divulgado nessa segunda-feira, a cada um dia e meio um homossexual brasileiro é morto. Nos últimos cinco anos, houve aumento de 113% no número de assassinatos de homossexuais. Apenas nos três primeiros meses de 2011 foram 65 assassinatos.


 A reportagem é de Daniella Jinkings e publicada pela Agência Brasil, 04-04-2011.
Entre as vítimas, 54% são gays, 42%, travestis e 4%, lésbicas. Para o antropólogo responsável pelo levantamento, Luiz Mott, as estatísticas são inferiores à realidade. “Esses 260 assassinatos documentados são um número subnotificado, porque não há no Brasil estatísticas oficiais de crimes de ódio. Para os homossexuais, a situação é extremamente preocupante.”

O estudo também aponta que o Brasil lidera o ranking mundial de assassinatos de homossexuais. Nos Estados Unidos, foram registrados 14 homicídios de travestis em 2010, enquanto no Brasil, foram 110 assassinatos. Além disso, o risco de um homossexual ser morto violentamente no Brasil é 785% maior que nos Estados Unidos. De acordo com Mott, esse aumento é resultado do aumento da violência e da impunidade. “Há um crescimento da quantidade de assassinatos. Além disso, menos de 10% desses assassinos são presos e sentenciados. Atualmente, a visibilidade dos gays é maior, pois há muitos se assumindo e isso provoca o aumento da intolerância.”

Entre os estados brasileiros, a Bahia lidera, pelo segundo ano consecutivo, o ranking nacional. Foram 29 homicídios em 2010. Alagoas ocupa a segunda posição, com 24 mortes; seguido pelo Rio de Janeiro e São Paulo, com 23 assassinatos cada. De acordo com o relatório, Alagoas também é o estado que oferece maior risco para os homossexuais. Maceió é a capital onde mais gays são assassinados - com menos de 1 milhão de habitantes, a cidade registrou nove homicídios.

Segundo o estudo, o Nordeste é a região mais homofóbica do país. O Nordeste abriga 30% da população brasileira e registrou 43% dos homossexuais assassinados. Vinte e sete por cento dos assassinatos ocorreram no Sudeste, 9% no Sul, 10% no Centro-Oeste e 10% no Norte. O risco de um homossexual do Nordeste ser assassinado é aproximadamente 80% mais elevado que no Sul ou no Sudeste.

De acordo com Mott, essa situação pode ser revertida com educação sexual nas escolas, maior rigor da polícia e da Justiça, políticas afirmativas que garantam a cidadania plena de 10% da população e maior cuidado dos próprios gays, travestis e lésbicas.

O GGB vai denunciar o governo brasileiro à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) e à Organização das Nações Unidas (ONU) por crime de prevaricação e lesa humanidade contra os homossexuais.

Desabafo

Por tantas vezes histórias reais são distorcidas pelas vozes mais altas. Por tantas vezes, os jornais divulgam o que o governo quer que as pessoas saibam e recusam-se a olhar por aqueles que imploram pelo espaço de um quarto de página e não têm dinheiro para pagar por ele.

Histórias são insistentemente contatas e recontadas, com ênfases e detalhes, a um jornalista, e um assessor bem pago ou uma boa assistência jurídica conseguem transformá-las em balela com a rapidez de um carro que não deixa mais que poeira no caminho por onde passou.

Então, quando escolho dar voz a quem me pede a oportunidade de divulgar a verdade, quando resolvo criticar imoralidades e irregularidades governamentais e dar um pouco de dignidade a uma situação sufocante sou chamada sensacionalista.

Talvez seja mesmo um erro escolher um lado. Não. Talvez seja mesmo um erro escolher o lado do mais fraco. Talvez eu devesse, como jornalista, apenas jogar opiniões e declarações, enfatizando aquela que tem mais a me oferecer. Contudo, eu tenho uma opinião própria e faço questão de expressá-la, sensacionalista ou não.

Talvez eu devesse mesmo é ser escritora, e não jornalista.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Sobre Freaks, de Tod Browning

Me recuso a utilizar a denominação brasileira para o filme de terror/comédia/drama/sociologia do diretor Tod Browning - o realizador de Dracula (1931). "Monstros" é quase uma ofensa à mensagem repassada pelo filme Freaks.

O filme em preto e branco de 1932 é chocante por demonstrar verdadeiramente o que, hoje em dia, utilizaríamos programas de edição gráfica para montar. O ambiente? Um circo. Lugar de alegria, gargalhadas, bichos e pessoas felizes, certo? Errado.


Os "bichos" de Freaks são pessoas comuns com apenas uma diferença: elas são aberrações - e não monstros.

O contexto é o dia-a-dia dessas adoráveis e horríveis - depende do ponto de vista - criaturas no circo em que são atrações. Mas claro que lá também há pessoas "normais" como a esnobe trapezista Cleopatra e homem forte Hercules, amantes e companheiros de discriminação contra os Freaks.



Cleopatra vê em Hans, o cordial e rico anão do circo, a possibilidade de ganhar dinheiro para esbanjar com Hercules e, mesmo que o homenzinho lhe deixasse enojada, ela o seduz e casa-se com ele. Na cerimônia, os freaks, sempre unidos, resolvem dar uma carta de credibilidade a Cleopatra e cantam uma música com a finalidade de aceitá-la em seu ciclo. Infelizmente - para a trapezista - ela estava bêbada e acaba demonstrando o seu desprezo juntamente com Hercules.

A vingança dos freaks é, na minha opinião, a única parte "aterrorizante" do filme, mas como torci para aquilo desde que não simpatizei nem um pouco com Cleopatra, só consegui exclamar um "Bem feito!" ao fim da cena.


Freaks é, na verdade, um dos filmes mais lindos e humanos que já assisti, graças à indicação do colega Cefas Carvalho. E cada freak - Daisy e Violet, as gêmeas siamesas de gostos e humores completamente divergentes, o engraçado homem-torso, e ainda o inteligente e sério homem-cobra (cujo ator foi casado e pai de cinco filhos) - me encantou singularmente.


Freaks é, mais que um filme comum, uma lição de vida e uma crítica ao pensamento da época, ainda mantido por muitos de nós.

domingo, 3 de abril de 2011

Sobre Henfil

Não vou dar uma de falsa amante da revolução e dizer que Henfil é o meu cartunista favorito. Não é. Na verdade, em matéria de talento gráfico, para mim, ele não é isso tudo. Mas o cara fez a diferença. Com  humor e talento incríveis, o jornalista, cartunista, quadrinista e escritor Henfil ajudou a contornar um dos piores períodos, se não o pior, de nossa história nacional.

 Graças a minha feliz e literária infância, eu não consigo não compará-lo com a dupla Fred e Jorge da série Harry Potter, que misturavam humor e indignação em seus protestos.

De toda forma, o meu objetivo desse post é mesmo apenas compartilhar esse quadrinho atemporal que achei de Henfil. Na verdade, o ano é 1980 e o espírito de liberdade urgia pelo Brasil a fora. Mas quem não deseja enxergar esperança todos os dias? Henfil foi tão feliz nesse quadrinho quanto em tantos outros de seus muitos rabiscos, misturando a coletividade de um país e a subjetividade de uma única pessoa. E é isso que não deixa que seu talento padeça, mesmo após 23 anos de sua morte.

Sobre Audrey Hepburn


A belga Audrey Kathleen Ruston queria mesmo era ser bailarina. Fruto de uma família conturbada, Audrey esteve presente em episódios da II Guerra Mundial, como militante, na Holanda, onde morou durante parte da infância e da adolescência. Desiludida de atuar como bailarina - Audrey não tinha as medidas certas para isso -  começou a fazer pequenas participações em filmes. Bastaram alguns deles para que ela ganhasse o seu primeiro papel principal, que viria a lhe render um Oscar, no filme A Princesa e o Plebeu (1953).

A atriz ainda se tornou, ao fim de sua carreira, embaixatriz da Unicef, instituição pela qual ela trabalhou incansavelmente até falecer, em 1993, aos 63 anos, vítima de câncer.

A beleza de Audrey, bem como sua simpatia, talento e dignidade, são admiradas ainda hoje por fãs de todo o mundo que, seduzidos pela atriz, ainda a mantêm no topo da lista de suas preferidas. O rosto da bela, inclusive, já foi inspiração para a personagem de HQ Julia Kendall.


Apesar dos bem-falados A Princesa e o Plebeu, Sabrina e Bonequinha de Luxo (no qual Audrey arrisca alguma palavras em português), o meu favorito é mesmo My Fair Lady, filme que fez com que minha paixão e admiração pela doce e encantadora Audrey Hepburn se consolidasse.

Para conhecer um pouco mais sobre Audrey, uma ótima pedida é  o filme de 2000, The Audrey Hepburn Story, em que Jennifer Love esforça-se para fazer jus à atriz em sua atuação amadora. A versão mais jovem de Audrey é interpretada pela talentosa Emmy Rossum.

sábado, 2 de abril de 2011

Sobre Alice Suburbana

Um mudança completa merece, no mínimo, uma explicação. Uma explicação, na verdade, de mim para mim. Até esse momento ainda não estruturei argumentos e motivos suficientes para essa modificação, então, vamos lá.

Não gosto muito de me centrar diretamente em assuntos pessoais ou no meu cotidiano, mas é necessário para explicar o motivo do novo nome. Estava eu entrando no CCHLA (Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes) da UFRN e passo por Louisy, a secretária da coordenação, com quem converso por minutos praticamente toda semana, mas ela sempre insiste em me chamar de Andrea (e isso foi uma evolução de "menina loirinha"), e não Andressa. Até que resolvi insistir para que aprendesse o meu nome verdadeiro. E, aparentemente, ela aprendeu. Dessa forma, achei estranho quando, ao passar por mim, ela disse: "Ei, Alice!" Porém, considerando a minha pressa e a pressa dela, só pude interrogar, intrigada: "Alice??"

Minutos depois, quando estava esperando o início de uma reunião, Louisy reaparece e repete o dito: "Ei, Alice!" Dessa vez, não me contive e cobrei imediatamente uma explicação para aquela mudança repentina de nomes. Ora, eu sequer pareço com nenhuma das Alices que conheço. Então, ela me disse que Gabi, outra funcionária do CCHLA com quem às vezes converso, sempre me chamou de Alice. Engraçado: eu nunca soube disso, em quase um ano, até ontem. Não tive tempo de perguntar o porquê daquilo, já que no segundo seguinte Louisy, sempre correndo, já tinha adentrado a sala da coordenação. Funcionária exemplar essa Louisy...


De toda forma, fiquei pensativa acerca daquela estranha denominação e comecei a me comparar com Alices... A primeira que me veio a cabeça foi mesmo a Alice Liddell. Aquela do País das Maravilhas. Tenho uma estranha e divertida afinidade com essa Alice. Eu a conheci, primeiramente, quando tinha onze anos. Digo, verdadeiramente, afinal, que tipo de criança nunca ouviu falar de Alice? Mas o livro, o livro mesmo (embora fosse uma versão adaptada), eu li quando tinha essa idade. Na época, me pareceu tão louco quanto cativante. Com o tempo, fui me informando também a respeito de Lewis Carroll, o autor, a quem muitas pessoas criticam por ter, aos trinta anos de idade, escrito um livro para uma criança de apenas dez. Alguns dizem que Carroll tinha um quê de pedófilo. Eu prefiro acreditar que ele compartilhava uma das minhas maiores paixões: encantar pessoas - crianças, principalmente, já que elas se deixam encantar com mais facilidade - com histórias de ficção.

Era exatamente dessa forma que eu me sentia ao ler Alice, agora a versão completa que incluía O País das Maravilhas e Através do Espelho, seis anos após o meu primeiro contato: Encantada. Como se, por alguns poucos minutos, a realidade, que nem sempre me fazia tão feliz quanto àquele livro, não fosse tão importante.

Por isso, me sinto atraída por qualquer produção, texto ou animação que diga respeito à obra. Assisti muitas versões: desde a animação da Disney até a minissérie norte-americana produzida pelo canal Syfy em 2009, em que Alice é uma professora de artes-marciais, adulta, forte, corajosa e curiosa e que acaba apaixonada pelo Chapeleiro. Esse, a propósito, era incrivelmente bonito e nem um pouco louco.
Passei, logicamente, pela Alice de Tim Burton. Não vou criticá-lo, ou esse post ficará bem maior do que (pelo visto) já ficará, mas posso dizer que a produção me encantou tanto quanto as outras Alices que já havia conhecido.

De fato, essa Alice me cativava e tínhamos, pensando bem, algo em comum: ambas somos impetuosas, curiosas, sedentas por experiências e, por isso, corajosas.

Porém, incrivelmente, essa não foi a única Alice que me veio à cabeça e nem a única responsável por o nome no blog. A Alice Suburbana, na verdade, talvez diga mais a respeito à segunda Alice que a essa.



Alice Pieszecki, a engraçada, crítica, dedicada e espontânea jornalista e radialista da série norte-americana The L Word, interpretada pela atriz Leisha Hailey. Alice é sempre aquela que procura entender as complicações, desvendar os mistérios, defender as minorias, e nunca se intimida se acha que está no lugar certo, com o pensamento certo.

O título completo, contudo, foi indicação da minha amiga, Ana Clara. Eu sempre soube que ela tem uma sensibilidade criativa admirável. E como ela escolheu atuar em uma área em que tal dom não é tão aproveitado, tento estimulá-lo de outras formas. Inclusive, de formas a me beneficiar, como aconteceu na madrugada de ontem. Demorei a aceitar que Alice Suburbana seria um título apropriado. Afinal, eu não sou tão suburbana assim. Mas também não sou tão urbana. Sempre preferi a periferia ao centro. Sempre simpatizo mais com grupos menores, com opiniões excluídas e ações não divulgadas. Então, talvez eu seja mesmo suburbana, de alguma forma.

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