domingo, 30 de janeiro de 2011

Entrevista com meu pai

Eu sempre soube que eu era o reflexo do meu pai, embora por tantas vezes tivesse me recusado a acreditar que poucas coisas em nós diferiam. Desde a maneira de pensar, os valores e as opiniões – com suas poucas diferenças de tempo, espaço e cultura – até o formato do dedo mindinho do pé. Como uma boa filha caçula, eu sempre tive orgulho disso. De tudo o que o meu pai foi e é e de todo o caminho por ele percorrido para chegar a isso. Sempre tive orgulho dos quilômetros que ele percorria a pé nas estradas “carroçais” para ir à escola quando criança; dos arranhões – cujas cicatrizes ainda hoje existem - adquiridos durante os percursos da roça; de sua coragem de sair de casa cedo na esperança de uma vida diferente; dos litros de leite azedos com os quais ele teve de se contentar para saciar a sua “metade bezerro” quando não havia mais que isso; de sua determinação e coragem de estudar quando muita coisa incitava-o a não o fazer e, mesmo com tudo isso, ter sido sempre excelente aluno. Porém, acima de tudo, eu tenho orgulho da sabedoria do meu pai. Tenho certeza de que, de todas as lições da minha vida, com ele aprendi as maiores. E, definitivamente, há uma razão para que eu o considere um herói.

Eu poderia citar as várias quedas de bicicleta das quais ele me socorreu, sempre sorrindo, como se a mancha roxa do guidon da bicicleta no meu pescoço não fosse nada, e aquilo, no fim, acabaria me fazendo rir. Ou poderia lembrar também o episódio na piscina do condomínio onde morávamos em Fortaleza. O meu constrangimento por minha irmã poder nadar na piscina grande e eu não passar daquela destinada às crianças. Não deveria ser lá tão difícil nadar. Meu pai nos assistia ao lado de fora das piscinas quando eu me joguei da menor para a maior e, antes que pudesse tentar nadar, já estava engolindo a água. Porém, eu pude senti-lo me puxar para cima, com o mesmo sorriso de quando eu caía da bicicleta e um comentário divertido que me fez rir mais uma vez, quando, se não fosse por sua atenção, eu poderia ter engolido água o suficiente para me afogar. Eu nunca realmente havia tomado consciência de que meu pai salvara a minha vida àquele dia até escrever esse texto.

Mas o motivo pelo qual o chamo de herói advém de uma entrevista que o meu, então, colégio designou-me a fazer com ele. Eu devia estar na faixa dos sete ou oito anos. Eram perguntas “banais”, como idade, profissão, cidade de origem, programa de TV favorito ou qualquer outra coisa que crianças de oito anos possam considerar relevante. Porém, uma das respostas do meu pai, a partir da minha pergunta “banal”, me fez pensar e aprender algo que eu levaria além dos meus oito anos, por uma vida inteira, acredito. Eu o questionei sobre quem seria o seu ídolo, curiosa para saber quem, para ele, seria o que a Mulher Maravilha era para mim. Não sabia se o Super Homem já existia quando ele era criança – isso parecia fazer, no mínimo, uns duzentos anos na minha visão infantil - ou mesmo o Homem Aranha, Capitão Caverna, Thunder Cats ou qualquer um desses desenhos que passavam na televisão. Eu estava preparada, inclusive, para ouvi-lo dizer que o seu ídolo era o William Bonner ou Luiz Gonzaga, mas, decididamente, não estava preparada para a resposta que ele me deu.

- José de Pinho Vieira.
- Quem, pai?
- Seu avô, meu pai!
- E é esse o nome do vô Dequinha? Mas, pai, eu falei de herói!
- Eu também, princesinha. Quem consegue criar, sustentar e educar nove filhos nos serrotes do meio dos matos de Cajazeiras, com certeza é um herói.

Naquele dia, eu apenas baixei a cabeça e anotei no caderno: “Ídolo: Seu pai.” Não me dei conta de que aquilo seria um dos primeiros de todos meus grandes aprendizados com meu pai, o qual eu descobriria, com o tempo, que era o meu herói. Talvez, agora, eu possa acrescentar o episódio da piscina aos motivos para isso, mas, definitivamente, após aprender, através dele, o verdadeiro sentido da palavra herói, eu me senti segura para aposentar a Mulher Maravilha e responder a todos os que me questionaram sobre um herói: “José Euriberto Vieira, meu pai.”

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A Fama

Assisti a esse filme semana passada e, embora o meu post seja ilustrado pelo poster dele, não é exatamente disso que quero falar.
O filme - diga-se de passagem, muito bom - fala basicamente da disputa entre dois aspirantes a mágicos em busca do melhor truque. Não importa se isso custe seus amores, seus amigos, pedaços dos seus corpos ou suas vidas. A parte final do truque é sempre chamada de "The Fame" e, por isso, o título do post.
É um filme, acima de tudo, de superação. E, por esse motivo, acho, ele veio a minha cabeça esse momento.
Superação não é bem um substantivo presente na minha vida. É decididamente algo que eu temo, embora reconheça a necessidade disso. E, nesse momento, tudo o que preciso - além de coragem, força, determinação, criatividade, uma roupa legal e um sorriso nos lábios e nos olhos - é de superação.
É quando a gente descobre que a vida, às vezes, não caminha por si mesma. E, para ser alguém, precisamos mesmo fazer por onde sê-lo. No fim, as coisas dependem mesmo da gente. E, decidamente, há coisas que meus pais ou amigos não podem fazer por mim. Sorte minha tê-los ao meu lado nesses momentos de superação. Porque eu sei que posso, que tudo - ou quase tudo - é superável, se eu tiver um apoio, um ombro, uma razão.

Sim, isso foi um desabafo, mas para que o post não pareça tão inútil, acreditem, The Prestige vale à pena ser assistido.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sobre o quanto a vida é bela


Sabe quando você acorda sentindo falta de algo? Olha pro lado e vê que sua televisão está lá, seu notebook também, sua estante de livros, sua gaveta de DVD's, seu celular... Aí simplesmente se sente mal por sentir falta de algo quando a maioria das pessoas do mundo têm bem menos.
Infelizmente, não é algo que se possa evitar. Acho que esse sentimento de falta vai demorar um pouquinho pra passar. Mas eu prefiro senti-lo a não sentir nada.

Deixando o sentimentalismo de lado, vamos aos meus interesses que, talvez, sejam um pouco mais interessantes para você, leitor, que os meus dramas psiocológicos.
Antes de ontem assisti a um filme realmente muito bom. Talvez um dos melhores a que assisti no último ano, se não o melhor. Um trabalho lindo sobre a Segunda Guerra Mundial, de Roberto Benigni (que também atua no filme), A Vida é Bela (Itália, 1997), mostra uma parte da realidade do Holocausto sem deixar o humor de lado.
O personagem principal, Guido (Roberto Benigni) é judeu e casa com uma italiana pura. Têm um filho e sempre viveram com simplicidade, porém felicidade. Até que Guido e seu filho são levados a um campo de concentração no dia do aniversário do pequeno Giosué. Dora, esposa de Guido, mesmo que não fosse judia, insiste em ser levada junto. Lá, Guido tenta enfrentar a situação com humor para que seu filho não fosse amedrontado. Não pense que o filme é uma sátira. Eu o definiria como uma lição de vida. Guido pode parecer para muitos um homem palhaço que não consegue levar uma situação a sério, ainda que a sua vida esteja em perigo. Na minha opinião, ele é um homem forte o bastante para tentar impedir o sofrimento de seu filho, ainda que veja a morte dele, da esposa e a sua própria a cada dia mais próxima. O filme é incrivelmente emocionante ao mesmo tempo que engraçado. Recomendado a todos que não resumem a sua filmografia a "besteiróis" e comédias românticas.

Agora, criticando. Bem, o blog é meu, o gosto é meu também, eu creio que tenha esse direito. Confesso que quando baixei o novo CD de Black Eyed Peas, The E.N.D. (Energy Never Dies), eu realmente esperava mais que três músicas boas. Gosto bastante da banda. Na época de Shut Up, Where's the love? (ápice!), Let's get started, eles me pareciam muito atraentes. Se uma música não tinha uma letra razoavelmente boa, o ritmo compensava e assim me parecia algo agradável de se ouvir. Mas o que é isso em The E.N.D.? Fui capaz de contar nos dedos de uma mão as músicas que consegui escutar até o fim. Têm decaído um bocado enquanto Fergie, em sua carreira solo, apenas evolui. Vai saber qual a jogada da vez... Ou talvez os meus gosto apenas estejam um pouco antiquados. Enfim, fica a dica.
Obs: Sem querer ser tão desprezível com os feijões, "Meet me Halfway" me surpreendeu, o melhor single do álbum sem sombra de dúvidas.

Faltam dois dias pro ano terminar e eu realmente espero que o próximo seja um bom ano.
Até amanhã ou Deus sabe quando!

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Cultive Rosas. Não as esqueça.

Ao som de Blondie e uma leve inquietação na mente, retomo o meu blog. Não sei quanto ele vai durar dessa vez, ou se essa será apenas mais uma postagem esquecida.
Talvez esse post não seja tão feliz quanto o que eu gostaria que fosse, porém, nem só de flores a vida é feita e, às vezes, o jardineiro precisa esquecê-las um pouco a fim de cuidar de si mesmo. Ninguém pode viver apenas a fim de algo ou alguém. Acabamos descobrindo que o que achamos ser a nossa criação, ou a nossa rosa, nos decepciona após tirar de nós tudo ou quase tudo o que poderia. Mesmo que seja como um erro ou como algo imperceptível, mesmo que não fosse intenção da rosa em questão deixar que o espinho machucasse quem lhe punha água.
A questão é que as pessoas erram. Machucam-se e machucam os demais. E ninguém está imune a isso. A questão é que ninguém conhecerá completamente outra pessoa. Todos temos demônios que preferimos guardar apenas para nós mesmos e, algumas vezes (em algumas pessoas mais frequentemente que em outras), esses demônios falam mais alto que a razão, ou o coração, ou o que quer que nos guie.
Não adianta confiar em anjos, flores, amores eternos, amizades infalíveis. No fim, somos todos humanos. Não que isso seja algo completamente ruim. O nosso objetivo na vida não é sermos perfeitos, mas errarmos para melhorar. Não só a si próprio, mas a outras pessoas.
Porém, ter a oportunidade de melhorar e persistir no erro é o que realmente machuca. Pelo menos a mim. Não é algo que eu consiga sustentar com muita facilidade.
Talvez ninguém mais veja isso, apenas a pessoa a quem esse texto diz respeito. Na verdade, não vejo necessidade e não preciso que ninguém mais veja. Só espero que ela saiba como agir frente a isso. Não ao texto, mas à situação.
O amor, seja ele de que tipo for, não é tão imune quanto julgamos. Nem o meu por você. Cultive-o como eu cultivo a minha rosa e eu garanto que ele será eterno. Disperdice-o e trate-o como todos os outros "amores" da sua vida que ele acabará. Essa é uma realidade humana. Como o que somos.

Espero que o próximo texto seja razoavelmente mais feliz.
Feliz Ano Novo a todos (ou a ninguém) que virem isso.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Até onde nossos olhos podem ver...

Já vi pais alegres por seus filhos de catorze ou quinze anos saberem manusear corretamente um carro de uma esquina a outra ou mãe orgulhosas por suas filhas terem lavado alguns pratos. Em suas palavras estão virando “rapazinhos” e “mocinhas” e dentre as circunstâncias nas quais foram criados não os reprimo por tamanha excitação.
Mas, agora, olhemos um pouco para o mundo que gira ao nosso redor. Quantos garotos de dez, onze anos ou, ás vezes, menos não carregam nas costas o sustento de uma família miserável na qual o pai é vagabundo e a mãe doente? Quantas meninas não são perfeitas donas de casa antes dos dez?
Checando por esse lado, o menino-e-seu-carro assim como a menina-e-seus-pratos não parecem feitos tão incríveis. Eu diria até insignificantes comparados ao que milhares de crianças enfrentam diariamente no Brasil.
Aos dez anos minha mãe saiu do interior do Rio Grande do Norte e seguiu seus tios para Maranguape, no Ceará, com a promessa do uso de um sabonete, ou pasta de dente e até atraída por ver uma televisão. Seu primeiro ato ao chegar a tal casa foi lavar (em cima de dois tijolos para alcançar a torneira) um monte, literalmente, de objetos domésticos que iam do chão até onde lhe foi permitido equilibrar. Mas isso não era nada para quem tinha como costume enfrentar a roça todos os dias.
Meu pai saiu de casa, também, jovem. Foi em busca do sonho de se formar e alcançar além dos “serrotes” de Espinheiro, no Ceará. Foi por vontade e conta própria para Madalena, Fortaleza e posteriormente Maranguape, utilizando-se do seu trabalho para sustentar-se. Provavelmente, quem o tivesse visto somente no início de sua vida não acreditaria que ele se tornasse o que é hoje.
Quantos não tiveram que passar por dificuldades maiores ou menores que essas pra alcançar seus objetivos? E quantos desses não venceram na vida e não são considerados um exemplo a ser seguido?
Isso sim é um motivo forte para se ter orgulho. Com certeza, bem maior do que o neném-do-berço-de-ouro ter aprendido a fazer o “pipi” no “troninho”.
Não reprimo pais que se alegrem com cada mínima conquista de seus filhos. É normal. Mas por que não ser mais um no mundo a olhar pelos que não têm a mesma sorte que muitos de nós temos? Por que não reconhecer a verdadeira conquista diária que passa despercebida (ou tolamente ignorada) aos olhos de quem mais deveria enxergá-la?
Por isso, pensemos duas vezes antes de chamar uma criança com trajes velhos ou rasgados de “moleque” ou um adulto pobre de vagabundo. Você não pode saber de quanta garra eles precisaram ou quantos desafios enfrentaram pela simples arte de sobreviver.

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