quinta-feira, 5 de julho de 2012

Lobo

(Não detenho os direitos autorais da imagem)

Era lobisomem. Mas convivia com a angústia de não poder ser lobo, apenas homem. Cansado de ser sempre aquele de onde são esperados os mais bondosos feitos, decidiu que faria tudo ao contrário, apenas uma única vez.

Por toda uma noite, enquanto pôde ver a Lua no céu, permitiu-se ser lobo. Rasgou roupas. As suas e a de outros. Rasgou corpos. O seu e, principalmente, os de outros. Permitiu também ser rasgado. E ao sangrar, libertou-se.

Percebeu que, num impulso de agressividade, rasgara também a alma. O vazio animal transformara-se em um vazio existencial. E se deu conta de que não poderia mais ser homem.
Apenas lobo.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A Fera e a Bela

(Não detenho o  direito autoral da imagem)

Acostumada a ser Fera, habituou-se com os próprios espinhos. Avisava de antemão o que deveriam esperar as pessoas que dominava. Como monstro, magoava, espetava, estraçalhava. Não por querer, mas achou que aquela personalidade era tudo o que tinha dentro de si. 

Achou, contudo, fera mais feroz, que fez de si, Bela. Contente por, finalmente, ter-se livrado da maldição, das carrancas e espinhos, concentrou-se em cuidar, preocupar-se, e amar, como ela imaginava que uma Bela faria. Havia um problema, porém. Fragilizada, não tinha qualquer defesa contra os ataques da fera por quem  se apaixonara. 

Sentia os espinhos lhe furarem a pele, as garras lhe arranhavam os membros, a força lhe quebrar os ossos, e o descaso murchar suas pétalas.

Decidiu, portanto, não mais ser Bela. Emudecida em seu próprio sofrimento, sentiu-se fortalecer, os membros crescerem e as garras ressurgirem. Os olhos, que outrora foram claros e puros, tornavam-se negros como a ausência de esperança. O corpo maculado agora era uma carcaça, tão rígida quanto o mármore, de onde tiraria as pedras que tornaria a jogar em quem quer que aproximasse. Os espinhos cobriam agora o seu corpo e o seu coração. 

Era novamente Fera. Até que, vítima de outra metamorfose, tornasse a ser Bela.

terça-feira, 3 de julho de 2012

À noite, com amor.

(Foto retirada do Google Images. Não detenho os direitos autorais)

Era uma noite. Mais uma.
Mais uma em que ela estava sozinha. Sentia-se vazia
Na verdade, sentia-se preenchida por um sentimento de solidão. E sabia que ele não passaria. Não naquele momento.
Olhou pela janela, em busca da Lua. Não a encontrou. Estava escondida e Alice não estava com paciência para aquele pique-esconde. Voltou à cama e deitou-se.
Respirou. Tentou relaxar.
Fechou os olhos e aos poucos sentiu os músculos descontraírem, a respiração pausar e logo em seguida assumir um ritmo agradável, como parte integrante da orquestra que compunha todos os barulhos daquela noite.
Aos poucos, o corpo também entrava em sintonia com a noite. E ela agradeceu por aquela sensação.
A mente, entretanto, persistia em ocupar-se com a angústia. A ausência do ser
Tinha raiva de não poder controlar o que sentia, o que pensava. Não era justo. Era o seu corpo, ela ia provar que, sim, era capaz de dominá-lo. De domá-lo.
Num gesto de fúria, arrancou as roupas, as íntimas, inclusive. Nua, ofereceu-se à noite.
Entreabriu as pernas e levou os dedos, ágeis e enfurecidos, até o meio delas.
Apalpou, tocou, explorou, penetrou, brincou e subjugou suas próprias sensações. Mostrou-lhes quem mandava em quem. E quando provou a si mesma ser vitoriosa, permitiu-se receber um prêmio.
Dedicou à noite, sua fiel amante, o prazer com o qual se presenteara.
E, embora o corpo parecesse mais leve, sentia-se mais viva. E adormeceu, antes que o efeito ilusório do orgasmo passasse e ela voltasse a submergir em sua própria utopia.

sábado, 31 de março de 2012

Motivos pelos quais odeio apaixonar-me

1. Odeio não conseguir comer nas horas que indicam a minha dieta.
2. Odeio não conseguir dormir 7h por noite.
3. Odeio ficar improdutiva.
4. Odeio me prender a pequenas expressões, palavras, miligramas de percepções, e formular um pensamento particular, muitas vezes desconexo.
5. Odeio a fuga da concentração.
6. Odeio as horas, que vezes correm à velocidade de lebre, vezes rastejam sem a mínima pretensão de acelerarem-se.
7. Odeio a desconfiança.
8. Odeio o medo, o receio.
9. Odeio a insaciabilidade.
10. Odeio como olhos que brilham como estrelas podem facilmente transformar-se em pequenas poças de água salgada.
11. Odeio o sorriso bobo, que idiotiza.
12. Odeio o nó na garganta.
13. Odeio o peso no estômago.
14. Odeio o sentimentalismo exacerbado.
15. Odeio a dependência.
16. Odeio a ansiedade.
17. Odeio a impossibilidade.
18. Odeio a visão fraturada que se julga onisciente.
19. Odeio os corpos, que simulam reações irreais, e escondem aquelas que desejamos conhecer.
20. Odeio as decepções.
21. Odeio a carência
22. Odeio a transparência que transmitimos, mesmo em ocasiões indesejadas.
23. Odeio a possibilidade do erro.
24. Odeio a preocupação exacerbada.
25. Odeio não ser correspondida.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Paradoxo do pretérito perfeito


Quando acreditei
Mentiste
Quando voei
Caíste

Quando corri
Paraste
Quando busquei
Calaste

Quando brinquei
Cansaste
Quando aceitei
Duvidaste

Quando amei
Desististe
Quando esperei
Partiste

domingo, 11 de março de 2012

As descobertas de domingo à noite

Tem uma coisa que me agrada em ficar sozinha. Eu sempre penso. Penso descontroladamente e, depois de tantos pensamentos, a gente sempre descobre alguma coisa. Hoje eu descobri porque fujo das pessoas. Bem, é. Eu fujo das pessoas. Sou simpática e tal, mas estou sempre fugindo. 

Há um "limite" da presença dos outros da minha vida. E se ele é extrapolado, já é hora de ir saindo de fininho. Algumas vezes é só porque sinto falta de estar sozinha mesmo. Outras vezes - a grande parte delas - é por medo. O mesmo medo que me faz fugir. É o medo de que as pessoas enjoem, como algumas já fizeram - fazem. Às vezes, a vontade é de ficar perto, de abraçar e compartilhar os pensamentos, sonhos, conhecimentos, angústias, sorrisos... Mas fujo por pensar que, talvez, ao fugir, a minha presença posterior se torne mais aturável.

É isso. Se somos sociáveis, se conhecemos muitas pessoas, saímos todas as noites, compartilhamos a vida com um número considerável de indivíduos constantemente, somos julgados. Se somos sinceros e nos deixamos mostrar, não faltam adjetivos moralmente inferiores para nos classificarem. É possível, contudo, que também sejamos elogiados e possamos agradar outros. Mas os maus predicativos são inevitáveis. Ao reclusarmo-nos, porém, e limitar a presença, não damos abertura para quaisquer predicativos mais íntimos. Sejam eles bons ou maus. É aí que prefiro o anonimato mediano à exposição exagerada.

Mas as pessoas também julgam os anônimos. E pior. São julgados sem sequer serem conhecidos. São chamados "reclusos", "afastados", "escanteados", como se isso fosse pecado. 

Mas é mesmo uma característica da sociedade criticar, generalizar e julgar. E cá estou eu fazendo o mesmo. Ora, é difícil padronizar opiniões. A cada dia tenho mais certeza de que as pessoas são tão singulares e particulares que se torna obtuso querer classificá-las. Por esse motivo, tenho a cada dia mais medo do que pensam. E mantenho-me reclusa. Que isso não seja uma heresia.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Heroína potiguar poderá ser homenageada na abertura da Copa de 2014

Foi com meu já declarado orgulho patriota, potiguar e feminista que recebi uma empolgante notícia ontem. Em oportunidade de conversação com o Professor Diógenes da Cunha Lima, fique sabendo de um projeto que está desenrolando pelas burocracias estatais para que a Copa de 2014 seja aberta com um balé que homenageia a vida de Clara Camarão, conhecida como a primeira heroína potiguar e nacional.

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